CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos.

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

27/10/2024

08:03:31

IMORTALIDADE

Hoje eu passei em frente àquele prédio
IMORTALIDADE
É um prédio simples, antigo, com um jeito triste. Tem corredores estreitos e apartamentos de cômodos pequenos, servidos por uma escada entre os dois únicos andares. Foi num daqueles apartamentos, ao rés do chão, que o pai fez a festa para a filha...

Foi num daqueles apartamentos, ao rés do chão, que o pai fez a festa para a filha. Éramos todos adolescentes e a filha completava quinze anos. O apartamento iluminado deu vida à fachada do modesto prédio e aquele trecho de rua ficou repleto de jovens e de música. Havia dois garçons que se espremiam pelos estreitos cômodos e corredores atulhados de moças e rapazes. Carregavam bandejas com salgadinhos e bebidas, às vezes iam até a calçada servir os convidados que preferiam ficar a salvo do tumulto do apartamento.

      A filha rodava entre amigas e possíveis pretendentes. Em seu rosto havia um sorriso enorme e na voz a excitação da menina princesa por um dia. Era bonita, mas não tinha a beleza padronizada exigida pelo nosso inseguro e cruel universo adolescente. Lembro-me dos seus pais: a mãe alegre, atarefada, fazendo tudo dar certo; e o pai feliz. Recordo que comentamos, com ironia, sobre a felicidade incontida daquele pai:

      ─ O coroa tá alegre...

      Era um pai baixinho, calvo, frágil e parecia já ser idoso naquela época.  Ia de um cômodo a outro, conversava, dava atenção a todos. Não era rico e imagino que foi um sacrifício dar aquela festa. Sacrifício recompensado no momento em que dançou a valsa com a filha na apertada sala do apartamento. Tenho certeza de que, naquele instante, ele valsava num enorme salão e rodava orgulhoso entre os convidados que admiravam sua bela princesa. Vieram palmas e, emocionado, o pai cedeu a vez ao pedido titubeante de um possível príncipe consorte. Então, com um sorriso nos lábios, o pai se afastou do mundo dos jovens. Sem deixar, um só instante, de admirar a felicidade no rosto da filha que ele tornara princesa naquela noite. O presente estava dado, a filha era feliz, uma etapa terminava.

      Hoje eu passei em frente àquele prédio. De vez em quando passo por ali. Mas hoje correu uma brisa, houve aromas de Vitess e Lancaster, uns tilintares de taças e músicas antigas. Vi-me naquela noite de festa com os meus amigos e revi nossos adolescentes olhares para as meninas de farfalhantes vestidos. Sei que a princesa se transformou numa senhora de olhar amargo e que seu pai partiu alguns anos após a festa. Agora também sou pai e a lembrança daquele senhor me deixou em uma surpreendente comunhão com ele. Como se os seus olhares e os seus gestos naquela noite, há mais de quarenta anos, chegasse agora trazendo uma pequena ternura ao meu dia. Não o vejo mais velho; se estivesse aqui poderíamos conversar uma conversa de pais, assuntos despretensiosos como esses que conversamos em filas de bancos, talvez falar sobre o mundo perigoso no qual criamos nossos filhos. Então penso que esse homem ainda existe, pois há alguém que pensa nele e se emociona com algo que fez há muitos anos. A vida segue, termina, mas nossos gestos continuam. Pode ser que fiquem para sempre em algum lugar ou na lembrança de um obscuro irmão num canto qualquer do mundo.


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