
Por: CARLOS ROSA MOREIRA
23/07/2023
09:25:11
DOMINGO DE JULHO, À TARDE

Além da barra, nas proximidades da Redonda, há uma nesga azul no céu. Aqui no Rio temos sempre a certeza de que chegará bom tempo. O inverno não passa de surtos de frentes frias. Por que as pessoas não saem para apreciar esse mar cinzento? É preciso tanto sol? Numa tarde de domingo como esta, avistei um ponto no mar. Era um nadador solitário, avançando em direção à praia com braçadas firmes e ritmadas, plenamente à vontade na água. Poucos se aventurariam num mar cinzento e vazio como aquele numa embuçada tarde de domingo. Observei-o durante um tempo e o vi chegar à praia. Admirei aquele homem, ele desejava apenas estar no mar, cinza ou azul, ensolarado ou não. Éramos assim também, meu amigo Renato e eu. Gostávamos de ir para o mar com o tempo chuvoso e a água clara. O mar fazia um aconchego na gente, era como estar em casa olhando a chuva pela janela.
Fico a
imaginar a vida abaixo da superfície naquelas pontas de pedra. As ondas revolvem
o fundo, espalham pequenos seres e, se forem ondas suficientemente fortes, até
arrancam mariscos. Peixes pequenos obedecem ao ir e vir das vagas, se
equilibrando naquele turbilhão. No encalço deles e de toda comida espalhada na
água, surgem os maiores em arrancadas velozes e botes rápidos. Tudo isso
acontece neste instante e acontecerá sempre que as ondas baterem, havendo ou
não nossa presença sobre a terra. Lembro-me das palavras de um velho homem do
mar que entendeu seu tempo: “... as ondas que continuarão batendo depois que a
humanidade se for”. Também procuro entender meu tempo. Por que passa tão
rápido? Será minha consciência de tudo
que já se foi e do pouco que será? Naquela
época em que gostávamos de mergulhar num mar de águas claras com o dia chuvoso,
não tínhamos passado, apenas o presente e a impressão de haver um futuro
imenso. As ondas bateram, o tempo se acumulou e tomamos consciência de sua
passagem. Acontecimentos ocorridos há vinte, trinta anos, parecem recentes,
pois somos mais passado do que futuro. É a sabedoria da natureza, que nos
mantém com nossas lembranças mais antigas para não perdermos o aprendizado.
Lembro-me das conversas dos marinheiros e dos mergulhadores
mais velhos. Éramos adolescentes e gostávamos de ouvir suas histórias. Certa
vez, ao contar um fato, um deles disse: “... tem pouco tempo isso, foi na época
que encontrei o corpo de Vitinho, não lembra?” “Vitinho” era meu primo, grande
nadador que, por conta de uma síncope, morreu nadando no mar. Desde criança
ouvia aquela história ocorrida numa época remota, anterior ao meu nascimento.
Meu amigo e eu tínhamos quinze anos quando ouvimos o velho mergulhador contar o
caso e rimos muito do “... tem pouco tempo isso...”. Hoje eu entendo o
mergulhador, que tinha muito mais vida do que só vinte anos. É... é igual a
caminhar. A gente começa, vai avançando, controlando a respiração, acertando o
passo, sentindo dores, aquecendo juntas e músculos. Adquirimos ritmo e
consciência dos nossos passos, o corpo vai se azeitando e aprendemos coisas
sobre nós mesmos. Então, repentinamente, inicia-se um galope danado. Se não
cuidar, perde-se a noção.
Comecei
falando do domingo, do mar e do tempo chuvoso e acabei com essa comparação
batida e banal da vida com uma caminhada. Deve ser porque estou caminhando
enquanto penso essas coisas, e pensamento puxa pensamento. Pensei na palavra
galope e me lembrei da Cavalgada, em cujos versos preciosos, escritos com
sangue eterno, Cecília nos mostra a inexorabilidade do tempo: